quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Poema do velho que (fingia que) sabia de tudo

Velho demais, velho demais para tudo,
velho demais para receber da vida presentes,
velho para dizer que terei surpresas,
pois, sei que não vi tudo,
mas o que vou ver não importa,
pois finjo que já vi tudo,
porque finjo que sou velho demais.
Velhos demais não se admiram com nada.

Velho demais, velho demais para amar,
velho para fazer planos, para sentir frios na barriga,
para tremer ao te ver, para pular ao ouvir tua voz,
se pulo quebro a espinha, se planejo, dá tudo errado,
se consigo o que quero, é pura experiência,
sei aplicar os padrões,
mas odeio os padrões, pois finjo que sou velho demais,
pois finjo que sou sábio demais.
Sábios demais adoram se fazerem de loucos,
sábios demais não amam ninguém.

Velho, muito velho,
mais velho do que aquela metamorfose ambulante
que não queria ter aquela velha opinião formada sobre tudo
e, mesmo assim, dizia ter mais de dez mil anos.
Eu sei que gente de dez mil anos
já não se surpreende e não muda de opinião,
eu sei disso porque também finjo ter dez mil...

Tenho vinte mil, tenho trinta mil, tenho muito mais,
tenho a idade do universo,
tenho a idade suficiente para dizer que entendo de todas as coisas,
para dizer que entendi todas as ciências,
para dizer que calculei todas as contas de todos os livros,
porque finjo que sou velho demais,
porque finjo que tenho idade de ser seu professor,
porque finjo que posso te ensinar,
porque sei que você também quer entrar na minha dança
e quer fingir que aprende comigo.

Eu sou um pássaro velho de asas depenadas,
estou pronto para defecar em sua cabeça,
defecar em seus sonhos,
eu estou pronto para te desmotivar.
Sei que toda essa esperança em seus olhos,
é só idade, os anos passam.
Sei disso, pois finjo que sei voar, que sei sonhar
e que sei destruir seus sonhos.

Sou idoso pra correr, sou idoso pra brincar,
sou idoso para viagens,
sou insuportável, sei que sou insuportável,
pois, é essa a única coisa que eu não finjo...
Sou velho, mas, por favor!
Por favor mesmo!
Não deixe que meu ranço me destrua,
não deixe que a esperança em mim se esvaia,
não permita que eu finja,
todas as vezes que você me ver fingir, me repreenda.
Para que eu me torne novo, de novo.
Para que a velhice em que me escondo como numa concha
se torne em juventude,
juventude não fingida.
Aquela das crianças curiosas, que querem aprender,
não juventude de revolucionário, que quer destruir o sistema,
quero juventude de menino malino,
que nada sabe, que tudo quer ver,
que tudo quer descobrir e que quer amar ternamente

os que estão a sua volta.
(26/01/2016)

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