Velho demais, velho
demais para tudo,
velho demais para
receber da vida presentes,
velho para dizer que
terei surpresas,
pois, sei que não
vi tudo,
mas o que vou ver
não importa,
pois finjo que já
vi tudo,
porque finjo que sou
velho demais.
Velhos demais não
se admiram com nada.
Velho demais, velho
demais para amar,
velho para fazer
planos, para sentir frios na barriga,
para tremer ao te
ver, para pular ao ouvir tua voz,
se pulo quebro a
espinha, se planejo, dá tudo errado,
se consigo o que
quero, é pura experiência,
sei aplicar os
padrões,
mas odeio os
padrões, pois finjo que sou velho demais,
pois finjo que sou
sábio demais.
Sábios demais
adoram se fazerem de loucos,
sábios demais não
amam ninguém.
Velho, muito velho,
mais velho do que
aquela metamorfose ambulante
que não queria ter
aquela velha opinião formada sobre tudo
e, mesmo assim,
dizia ter mais de dez mil anos.
Eu sei que gente de
dez mil anos
já não se
surpreende e não muda de opinião,
eu sei disso porque
também finjo ter dez mil...
Tenho vinte mil,
tenho trinta mil, tenho muito mais,
tenho a idade do
universo,
tenho a idade
suficiente para dizer que entendo de todas as coisas,
para dizer que
entendi todas as ciências,
para dizer que
calculei todas as contas de todos os livros,
porque finjo que sou
velho demais,
porque finjo que
tenho idade de ser seu professor,
porque finjo que
posso te ensinar,
porque sei que você
também quer entrar na minha dança
e quer fingir que
aprende comigo.
Eu sou um pássaro
velho de asas depenadas,
estou pronto para
defecar em sua cabeça,
defecar em seus
sonhos,
eu estou pronto para
te desmotivar.
Sei que toda essa
esperança em seus olhos,
é só idade, os
anos passam.
Sei disso, pois
finjo que sei voar, que sei sonhar
e que sei destruir
seus sonhos.
Sou idoso pra
correr, sou idoso pra brincar,
sou idoso para
viagens,
sou insuportável,
sei que sou insuportável,
pois, é essa a
única coisa que eu não finjo...
Sou velho, mas, por
favor!
Por favor mesmo!
Não deixe que meu
ranço me destrua,
não deixe que a
esperança em mim se esvaia,
não permita que eu
finja,
todas as vezes que
você me ver fingir, me repreenda.
Para que eu me torne
novo, de novo.
Para que a velhice
em que me escondo como numa concha
se torne em
juventude,
juventude não
fingida.
Aquela das crianças
curiosas, que querem aprender,
não juventude de
revolucionário, que quer destruir o sistema,
quero juventude de
menino malino,
que nada sabe, que
tudo quer ver,
que tudo quer
descobrir e que quer amar ternamente
os que estão a sua
volta.
(26/01/2016)