quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Meu olhar sobre "O Pequeno Príncipe"


            Acho que uma das coisas mais interessantes de crescer, é ter outro olhar sobre as coisas; é poder olhar e ver mais que o superficial; perguntar e buscar respostas. Reler um livro lido na infância é uma experiência singular que para minha sorte, tive o gosto de experimentar mais uma vez.



            Não lembro bem se foi no quinto, sexto ou sétimo ano do Ensino Fundamental, minha professora de português me emprestou "O Pequeno Príncipe" dizendo que o livro dela era uma relíquia e que eu deveria mesmo ler porque era um clássico. Li durante uma tarde inteira. Achei interessante, mas não vi nada além da historinha, não vi nada de tão sensacional, mas gostei do livro. Entreguei de volta para a professora que me perguntou com um sorrisão se eu tinha gostado, talvez esperando meio ansiosa que eu tecesse comentários mil sobre o livro, apenas respondi que gostei.  Desde então um bocado de tempo se passou e mais uma vez estava com esse título na mão (um presente que ganhei) e li novamente. Minha mente agora trabalha de maneira diferente, experimenta olhares diferentes observou cada quadro e montou um inusitado mosaico de interpretação, diferente de qualquer coisa que eu lembrasse sobre o livro. Você pode achar que eu "viajei muito", ou que ando assistindo muito filmes como "Clube da Luta" (acabei de violar a primeira regra do clube, mas deixa quieto! ), mas eu ainda acho que faz sentido. Lá vai.



        A PARTIR DAQUI SIGA POR SUA CONTA E RISCO, SPOILERS SURGIRÃO SEM DÓ NEM PIEDADE. SE VOCÊ AINDA NÃO LEU O LIVRO, É MELHOR LER ANTES.


            Um aviador cai no deserto após uma pane em seu avião, por todo lado só vê areia e está com fome e com sede. Tenta, sem sucesso, consertar o motor do seu avião e se vê diante da possibilidade da morte iminente. Esse é o início do segundo capítulo do livro e o ponto de partida da história. Esqueça por um momento que o livro é um "livro infantil" e imagine essa cena. Ao anoitecer, o faminto aviador, que já começara a fazer um racionamento da água (que só daria para oito dias), adormece. Pela manhã é acordado por uma voz infantil que pede para ele desenhar um carneiro. 
Mas espere um pouco! Qual a possibilidade de uma criança estar sozinha no meio do deserto?  Minha resposta? Nenhuma, desde que a criança não seja fruto de sua imaginação.

            O Príncipe e o aviador são a mesma pessoa, uma espécie de manifestação alucinatória do lado infantil do aviador das coisas boas que ele deixou pra trás, dos sonhos aos quais não deu continuidade (Agora tenha em mente o primeiro capítulo do livro, lembra do que é que ele fala? Ele fala que pintava, ele fala que "os adultos" o desestimularam. "Foi assim que abandonei, aos seis anos, uma esplêndida carreira de pintor"). É a consciência que ele teve sobre a vida dele, sobre os erros das pessoas, na iminência da morte por inanição no deserto. Foi uma maneira de lembrar da sua vida, pelos olhos de uma criança. 

            Ele havia deixado seu amor (a Rosa) em meio a brigas e isso lhe atormentava pela possibilidade de não ter mais chance de corrigir seus erros, de nunca mais vê-la, de não mais poder protegê-la dos males do mundo.  

            Já a raposa é o símbolo do amigo que ele deixou pra trás. 

            A Serpente era a tentação do suicídio nessa situação desesperadora. Aparentemente seria mais fácil e menos doloroso acabar com aquilo tudo de uma vez, do que morrer lentamente com fome, sede e remorso. Ao pensar no suicídio (serpente) ele começa a relembrar tudo o que ele viveu e conversar com ele mesmo. A desenhar.  Ele lembra que deixou seus sonhos para trás, as coisas que ele gostava de fazer. (Desenho da cobra) Aí onde as coisas se ligam: a cobra é a representação da tentação. Mas a imagem da serpente é tão vívida que faz ele lembrar de seus desenhos de infância, de que gostava de desenhar e é aí que a história começa, a serpente é a entrada e a saída dessa história toda
         
            Antoine de Saint-Exupéry, o autor do livro, era um aviador militar, tendo servido inclusive no sul Marrocos e provavelmente se referia a esse tipo da aviador quando escreveu o livro. É interessante imaginar que o aviador do livros carregasse um revólver consigo, assim como o principezinho aparece carregando consigo uma espada na primeira ilustração que o representa

            É interessante lembrar que os habitantes dos planetas que o pequenino visita são como pessoas que estão no cotidiano de todos nós, e que o aviador também deve ter encontrado ao longo da jornada que o levou até esse ponto. Pessoas viciadas em mandar (chefes, talvez superiores do exército?), narcisistas, alcoólatras, gente que só pensa em dinheiro e nos seus negócios (o Businessman) Pessoas que trabalham exaustivamente pra se sustentar (acendedor de lampiões), Geógrafos covardes que querem toda a informação sobre um lugar, sem se arriscar a ir lá (seus superiores quando ia a missões de reconhecimento?), são todos personagens presentes aos montes no nossos imenso planeta azul, como é destacado no décimo sexto capítulo.

            A chegada de principezinho à Terra, pode muito bem ser imaginada como o momento após a separação do aviador e após o aviador ter visto e confrontado todos esses tipos estranhos e solitários. O décimo sétimo capítulo é marcado pelo primeiro encontro do príncipe com a serpente. Certamente o aviador estava muito solitário e desolado após ter deixado seu amor e só ter encontrado decepção nas outras pessoas, suas primeiras "crises existenciais" e tentações de suicídio teriam sido nessa época.
"- Onde estão os homens? Repetiu enfim o principezinho. A gente está um pouco só no deserto.
- Entre os homens também, disse a serpente. 
(...)
- Eu posso levar-te mais longe que um navio, disse a serpente.
Ela enrolou-se na perninha do príncipe, como um bracelete de ouro:
- Aquele que eu toco, eu o devolvo à terra de onde veio, continuou a serpente. Mas tu és puro. Tu vens de uma estrela...
O principezinho não respondeu.
- Tenho pena de ti, tão fraco, nessa Terra de granito. Posso ajudar-te um dia, se tiveres muita saudade do teu planeta. Posso...
- Oh! Eu compreendi muito bem, disse o principezinho. Mas por que falas sempre por enigmas?
- Eu os resolvo todos, disse a serpente.
E calaram-se os dois."
           O capítulos XVII e XVIII continuam marcados pela  solidão e sensação de ser pequeno diante do mundo. O Príncipe sobe montanhas, tentando achar companhia, mas só ecos lhe respondem. Em sua solidão só consegue enxergar a solidão alheia. Ecos da solidão de estar entre os outros. Mesmo no topo, ainda estava só.

           O Aviador contempla as mulheres e pensa que são todas iguais (Capítulo XX). Depois eles encontra um amigo, alguém que conquista sua confiança depois que ele havia se decepcionado tantas vezes, talvez um camarada soldado (A raposa), que o faz perceber que se ele realmente amava sua mulher, ela não era igual às outras, porque seria única no mundo. A amizade deles é verdadeira, mas talvez suas Missões e cargos fossem diferentes, seus caminhos fossem diferentes, então eles se despedem (Despedida da raposa). Estava sozinho novamente.

            Depois ele parte pra sua viagem (estação de trem/manobrista, capítulo XXII), onde percebe que a maioria das pessoas nunca está satisfeita no lugar onde está, que estão sempre procurando satisfação em lugares onde não estão. Só as crianças saberiam apreciar o momento. Essa reflexão continua no capítulo seguinte onde ele depara com um vendedor que prometia com seu produto ajudar a economizar tempo, mas essa economia na verdade era vã, porque só era mais um jeito de não desfrutar o momento.

            No final Capítulo XXIV o Aviador encontra um poço, sua vida estava salva, agora tinha mais tempo para consertar o avião, mas, por outro lado, as coisas começam a complicar porque ele começa a perceber a insanidade de tudo. O fato dos desenhos serem realidade para o Pequeno Príncipe, já denota que a realidade do Príncipe é a imaginação do aviador.

            No capítulo XXV Ele tinha que se despedir daquela alucinação para voltar para casa, mas ao mesmo tempo já tinha se afeiçoado ao principezinho.
"- Ah! Disse-lhe eu, eu tenho medo...
Mas ele respondeu:
- Tu deves agora trabalhar. Ir à busca do teu aparelho. Espero-te aqui. Volta amanhã de tarde...
Mas eu não estava tranquilo. Lembrava-me da raposa. A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar..."

            No capítulo seguinte o dilema continua, O Pequeno Príncipe tinha que voltar para casa e para sua Flor, assim como o aviador tinha que voltar para o mundo real e para seu amor.

"- E quando te houveres consolado (a gente sempre se consola), tu te sentirás contente por me teres conhecido. Tu serás sempre meu amigo. Terás vontade de rir comigo. E abrirás às vezes a janela à toa, por gosto... E teus amigos ficarão espantados de ouvir-te rir olhando o céu. Tu explicarás então: "Sim, as estrelas, elas sempre me fazem rir!" E eles te julgarão maluco. Será uma peça que te prego..."

            E o pequeno Príncipe se vai (Capítulo XXVI) , seu corpo some (Capítulo XXVII) . Mas ao mesmo tempo, o Aviador retoma o caminho de casa. Ele não poderia conviver com a alucinação do Príncipe. Mas voltou com as lições que ele lhe proporcionou. A história da alucinação toda poderia lhe render a fama de ter enlouquecido no deserto. Ele nunca conta a história aos adultos. Só para as crianças. 
"Sei que ele voltou ao seu planeta; pois, ao raiar do dia, não lhe encontrei o corpo. Não era um corpo tão pesado assim..."

            No Capítulo XXVII o aviador já voltou para casa, mas sua aflição quanto ao destino do Pequeno Príncipe me faz pensar que ele ainda não voltou ao seu amor. E ele torce que o Príncipe tenha tido êxito, porque assim, quem sabe ele teria êxito em voltar para a sua mulher e mantê-la segura. 
"Olhem o céu. Perguntem: Terá ou não terá carneiro comido a flor? E verão como tudo fica diferente...
E nenhuma pessoa grande jamais compreenderá que isso tenha tanta importância!"
            É isso aí, pessoal, foi uma possibilidade de interpretação que eu vi. Não significa que eu ache que é obrigatória a interpretação do livro ser assim. A interpretação dos personagens como metáforas podia ser também aplicada a outros contextos interpretativos. As linhas gerais das interpretações que lancei sobre as situações do livro, sobre a estação de trem, ou sobre as montanhas, por exemplo, ou sobre personagens como a raposa e a serpente, são aplicáveis mesmo que o Pequeno Príncipe não seja o Aviador, mesmo que o Aviador estivesse falando de outro amigo especial. "That's all, folks!"
O que vocês acharam? Fiquem à vontade para interagir. Até a próxima!


Todas as citações de "O Pequeno Príncipe" foram baseadas no livro presente nesse site aqui: http://www.cirac.org/Principe/Start-pt.htm

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