Antes de o Orkut acabar, a
moça resolveu dar uma olhada em suas lembranças no site. Quando
abriu seu perfil, deparou-se com o seguinte texto:
Oi, estou escrevendo este depoimento porque, sinceramente, estava
entediado. Você entende como é, fazemos coisas sem sentido quando
estamos entediados. Na verdade, é o que fazemos na maior parte do
tempo. Veja o contexto onde estou escrevendo estas linhas, a
internet, todos perdem tempo com trivialidades aqui na rede.
E porque estou escrevendo isso? Não sei.
Talvez, eu queira falar algumas coisas que não falei no bate-papo,
mas não sei bem se já pensava tudo o que penso agora naquele tempo.
Nossas conversas eram incríveis... Você era incrível ou, ao
menos, pensava que você era incrível. Infelizmente, não posso
discernir a verdade partindo apenas do histórico de bate-papo. Não
posso dizer que te conheci. Posso dizer – isso sim – que conheço
o que você escreveu sobre si. Gostei do que li. Sinto não ter tido
a oportunidade de ver se o que foi escrito era uma realidade
concreta.
Marcamos vários encontros e os desencontros da vida fizeram o favor
de desmarcar todas estas oportunidades. Ou será que era você que
não queria se encontrar comigo? Não sei e, na verdade, não importa
mais.
E ainda tive a sanha de te idealizar.
Estava tudo ali, numa caixinha de diálogo, redigido por tuas mãos.
Não precisava idealizar, você já tinha realizado esse trabalho por mim, suponho. Queria
quebrar a diferença entre teoria e prática, queria contar minhas
piadas pessoalmente e ver tua expressão facial – ainda que
simulando – com riso. Massagearia meu ego, você se divertiria
bastante e comeríamos uma pizza depois de ver algumas vitrines no
shopping.
Neste momento, você já parou de ler. O que faço pode ser
entendido facilmente como comportamento obsessivo de um stalker, ou
de um mal-amado. Creio que – embora pareça – não estou fazendo
isso. É só tédio, mesmo...
Sabe,
cheguei estressado do trabalho, abri uma garrafa de bebida barata e
estou sentindo o efeito do álcool. A bebida ainda não fez
efeito nos meus dedos, por isso ainda não comecei a tlocar...
digo... trocar as letras.
Será que estou escrevendo tudo isso para dizer que tenho saudade? Não... Ou talvez... Quem se importa?
O Orkut está acabando, aquele histórico de bate-papo virará
poeira em algum hub da Google e eu não poderei ler nossas conversas
de novo para me lamentar mais uma vez.
Enfim, acho que era isso que queria escrever...
:) :) :)
A
moça então falou:
– Quem é esse maluco?
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