sábado, 2 de julho de 2016

Último depoimento no Orkut

Antes de o Orkut acabar, a moça resolveu dar uma olhada em suas lembranças no site. Quando abriu seu perfil, deparou-se com o seguinte texto:

Oi, estou escrevendo este depoimento porque, sinceramente, estava entediado. Você entende como é, fazemos coisas sem sentido quando estamos entediados. Na verdade, é o que fazemos na maior parte do tempo. Veja o contexto onde estou escrevendo estas linhas, a internet, todos perdem tempo com trivialidades aqui na rede.

E porque estou escrevendo isso? Não sei.

Talvez, eu queira falar algumas coisas que não falei no bate-papo, mas não sei bem se já pensava tudo o que penso agora naquele tempo. Nossas conversas eram incríveis... Você era incrível ou, ao menos, pensava que você era incrível. Infelizmente, não posso discernir a verdade partindo apenas do histórico de bate-papo. Não posso dizer que te conheci. Posso dizer – isso sim – que conheço o que você escreveu sobre si. Gostei do que li. Sinto não ter tido a oportunidade de ver se o que foi escrito era uma realidade concreta.

Marcamos vários encontros e os desencontros da vida fizeram o favor de desmarcar todas estas oportunidades. Ou será que era você que não queria se encontrar comigo? Não sei e, na verdade, não importa mais.

E ainda tive a sanha de te idealizar.

Estava tudo ali, numa caixinha de diálogo, redigido por tuas mãos. Não precisava idealizar, você já tinha realizado esse trabalho por mim, suponho. Queria quebrar a diferença entre teoria e prática, queria contar minhas piadas pessoalmente e ver tua expressão facial – ainda que simulando – com riso. Massagearia meu ego, você se divertiria bastante e comeríamos uma pizza depois de ver algumas vitrines no shopping.

Neste momento, você já parou de ler. O que faço pode ser entendido facilmente como comportamento obsessivo de um stalker, ou de um mal-amado. Creio que – embora pareça – não estou fazendo isso. É só tédio, mesmo...

Sabe, cheguei estressado do trabalho, abri uma garrafa de bebida barata e estou sentindo o efeito do álcool. A bebida ainda não fez efeito nos meus dedos, por isso ainda não comecei a tlocar... digo... trocar as letras.

Será que estou escrevendo tudo isso para dizer que tenho saudade? Não... Ou talvez... Quem se importa?

O Orkut está acabando, aquele histórico de bate-papo virará poeira em algum hub da Google e eu não poderei ler nossas conversas de novo para me lamentar mais uma vez.

Enfim, acho que era isso que queria escrever...

:) :) :)

A moça então falou:

– Quem é esse maluco?

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